terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A ilha sob o mar, Isabel Allende


"Dança, dança, Zarité, porque escravo que dança é livre… enquanto dança!"
Comprei este livro há bastante tempo, mas sempre acontecia algo que me fazia deixá-lo na estante. Acho que a quantidade de páginas aliada ao fato de tratar sobre a escravidão - um tema que consegue me deixar profundamente triste - foram alguns dos motivos que fizeram com que eu demorasse tanto a começar a leitura. Mas, assim que comecei, não consegui parar até terminá-la. Confesso que me agradou muito, muito mais do que eu esperava.
Assim começa a história:
Em meus quarenta anos, eu, Zarité Sedella, tive melhor sorte que outras escravas. Viverei longamente e minha velhice será contente, porque minha estrela - minha z’etoile - brilha também quando a noite está nublada. Conheço o gosto de estar com o homem escolhido por meu coração, quando suas mãos grandes me despertam a pele. Tive quatro filhos e um neto, e os que estão vivos são livres. Minha primeira lembrança da felicidade, quando ainda era uma moleca ossuda e descabelada, é mover-me ao som dos tambores e esta é também a mais recente felicidade, porque à noite estive na praça do Congo dançando e dançando, sem pensamentos na cabeça, e hoje meu corpo está quente e cansado. Bato no chão com as solas dos pés e a vida me sobe pelas pernas, me recorre o esqueleto, se apodera de mim, me tira o dissabor e me adoça a memória. O mundo estremece. O ritmo nasce na ilha sob o mar, sacode a terra, me atravessa como um relâmpago e vai ao céu levando meus pesares.
Isabel Allende narra os quarenta anos da vida da protagonista Zarité, uma escrava que foi vendida aos nove anos de idade para Toulouse Valmorain, um rico produtor de açúcar de Saint Domingue, atual Haiti. Zarité, embora submissa, pouco a pouco vai transformando-se em uma mulher forte e corajosa. Apesar de sofrer todas as mazelas impostas pela sociedade escravocrata da época, e ter consciência de  que o simples fato de ser negra já a tornava inferior a tudo, ainda assim não desiste, luta para alcançar sua liberdade e consequentemente a felicidade.  Para Zarité, as humilhações que sofria, o controle absoluto do seu senhor, o poder do ser humano sobre outro ser humano, era o pior que podia passar... era cruel, era desumano! A história se passa no final do século XVIII, e a autora faz uma minuciosa reconstrução da época, narra de uma forma profunda os horrores da escravidão, conta como os escravos eram trazidos da África e rebaixados à condição de animais, destinados a trabalhos forçados.
É um livro que emociona, que envolve, que mostra as mil facetas desse povo africano tão sofrido: suas crenças, seus conhecimentos medicinais, sua culinária, sua dança…
Allende nos presenteia ainda com vários personagens interessantes: o amo Valmorain, sua frágil esposa espanhola e seu sensível filho Maurice; o sábio médico Parmentier; o militar Relais e a cortesã Violette; Tante Rose, curandeira respeitada e conhecedora de todos os mistérios das ervas medicinais; Gambo, o escravo rebelde, forte e destemido.
Mesmo sendo extenso, suas mais de 500 páginas nao cansam o leitor, pois o enredo é interessantíssimo. A ilha sob o mar é uma história sobre a escravid
ão, mas não apenas isso, é também uma história sobre o amor, a traição, o sofrimento e, principalmente, sobre a coragem e força de uma mulher e de sua luta por sobrevivência e dignidade. O livro trata de temas bem atuais, pois, infelizmente, ainda há diferentes formas de escravidão, ainda há muitas Zarités pelo mundo afora. Oxalá todas tivessem esperança de liberdade e, sobretudo, coragem para lutar.
Todos nós temos uma reserva de forças inimaginável que emerge quando a vida nos pões à prova.
Todos nós temos uma reserva de forças inimaginável que emerge quando a vida nos põe à prova.

Sobre a autora:
allende**
Isabel Allende nasceu no Perú, em 1942. Em 1982 publicou sua primeira novela, A Casa dos Espíritos, que a transformou em um dos mais importantes nomes da literatura latino-americana. Lançou ainda vários títulos, todos êxitos internacionais. Sua obra foi traduzida para mais de trinta idiomas.

4 comentários:

  1. Oiii Day!!!! Desculpe a demora em vir conhecer seu blog, mas agora que encontrei-o, vou lendo tudo aos poucos, pode deixar...
    Beijãooo e boa semana!!!
    Aliny - ler e amar

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  2. Acredita que nunca li Isabel Allende??? Preciso consertar isso, hehe...

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  3. Vou colocar teu blog lá no "blogs que adoro"...

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  4. Obrigada, Aliny!
    Eu criei o blog no início de fevereiro, ainda tá bem verdinho.
    Quando puder leia a Isabel, eu gostei dos livros dela que li.
    Abraço

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