quinta-feira, 28 de junho de 2018

A casa das belas adormecidas...

” A mais bela das mulheres não poderia, durante o sono, dissimular a sua idade. Um rosto jovem é agradável durante o sono, mesmo que a mulher não seja uma beleza. Talvez não pudesse escolher, naquela casa, senão raparigas agradáveis de ver enquanto dormiam.”

casadasbelas3A primeira vez que escutei falar em Yasunari Kawabata foi em dezembro de 2005, naquela época acabava de ser publicado no Brasil o livro Memória de minhas putas tristesdo escritor colombiano Gabriel García Márquez. Muito se falava a respeito desse novo livro, pois foi a partir dele que Gabo colocava fim a um jejum de dez longos anos longe dos romances. Foi nessa onda de novidade e curiosidade que comecei a leitura… Já na orelha da capa fiquei sabendo que Memória de minhas putas tristes havia sido inspirado em A casa das belas adormecidas, do escritor japonês Yasunari Kawabata. García Márquez começa sua história com uma epígrafe retirada da própria história de Kawabata:
“Não devia fazer nada de mau gosto, advertiu a mulher da pousada ao ancião Eguchi. Não devia colocar o dedo na boca da mulher adormecida nem tentar nada parecido.”
O livro de Gabo não me agradou muito porque 
seu tema remete à pedofilia, um assunto que me causa repulsa e estranhamento, no entanto, a epígrafe deixou-me curiosa.
Conversando com algumas pessoas acerca dessa leitura frustrada, sugeriram-me ler o livro de Kawabata que, na opinião da maioria, é superior ao de Gabo. Passaram-se os anos e eu acabei descobrindo que García Márquez havia escrito também um conto baseado nesse livro (para ler o conto, clique aqui). Então, outra vez, a vontade de conhecer a história das Belas Adormecidas, voltou. Mas só agora, mais de uma década após aquela epígrafe, eu finalmente encarei o livro do escritor japonês.
A casa das belas adormecidas foi publicado originalmente no Japão em 1961. Li a edição portuguesa com tradução de Luís Pignatelli feita a partir da tradução francesa. Essa edição traz um prólogo estupendo do também escritor e amigo íntimo de Kawabata, Yukio Mishima. Pesquisando mais sobre o escritor, descobri que ele teve uma vida bastante conturbada e marcada por tragédias familiares. Aos dois anos ficou orfão e foi viver com os avós paternos; tempos depois, perdeu a irmã; mais à frente, os avós; alguns anos mais tarde, seu íntimo amigo, Yukio Mishima, cometeu suicídio. Lendo sobre todas essas situações trágicas pelas quais o escritor passou e pela vida repleta de perdas, não é por acaso que o autor coloca em seus livros tanta melancolia e até um quê de desespero.
Yasunari Kawabata nasceu em Osaka em 1899. Foi cineasta em sua juventude, um leitor voraz tanto dos clássicos como das vanguardas europeias. Foi um solitário durante praticamente toda a vida e uma pessoa torturada pela insônia. Escreveu novelas, contos, romances e é um dos escritores japoneses mais populares dentro e fora de seu país. Recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1968. A maioria de suas obras está marcada pela solidão e pelo erotismo, se destacam além de A casa das belas adormecidas, também Beleza e Tristeza e País da Neve. Apesar do seu discurso na cerimônia de entrega do Premio Nobel de Literatura ter sido contra o suicídio, Kawabata tirou a própria vida em 1972. 


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Yasunari Kawabata

A casa das belas adormecidas é um livro bem curtinho, apenas 128 páginas divididas em cinco capítulos. Narrado em terceira pessoa, conta a história de Eguchi, um idoso de 67 anos que, influenciado por um amigo, decide visitar uma casa clandestina, uma espécie de bordel japonês do final do século passado. Nessa casa é possível passar a noite ao lado de meninas jovens, lindas, nuas, virgens e adormecidas por meio de narcóticos. O amigo de Eguchi, Kiga, conta-lhe que os idosos uma vez ao lado dessas jovens passam a sentir-se vivos e vigorosos -, algo bastante incomum na idade em que eles se encontram, pois é justamente nessa altura da vida que a manifestação da morte tende a se repetir de maneira contínua, por isso a casa das belas adormecidas vai servir como uma espécie de refúgio sempre que o desespero de envelhecer se tornar insuportável.
Eguchi teve uma vida aparentemente normal, casou-se, teve filhas e netos e, à sua maneira, foi feliz. Contudo, sua velhice é repleta de melancolia, solidão e nostalgia. As partes que achei mais interessantes são justamente aquelas que remetem às lembranças remotas de sua juventude, lembranças essas que retornam com muita força durante os momentos em que ele permanece ao lado das jovens adormecidas. Mas, apesar de estar na companhia dessas jovens, ainda assim continua a sentir-se solitário, pois não pode compartilhar absolutamente nada com elas. O livro de Kawabata ao mesmo tempo que mostra a realidade de um homem idoso, solitário, inquieto e desprovido de virilidade, concede também ao protagonista um momento de reflexão sobre si próprio, sobre seus sentimentos, sobre sua capacidade de se emocionar e de se comover diante da proximidade da velhice. A realidade do velho Eguchi o incomoda, seu repúdio à situação em que se encontra é visceral, tanto que ele considera-se um ridículo por estar a dormir ao lado de meninas desmaiadas, quase mortas.

“E, contudo, poderia haver coisa mais horrível do que um velho que se dispunha  a deitar-se uma noite inteira ao lado de uma rapariga que tinham adormecido por todo esse tempo e que não abriria os olhos? Eguchi não teria por acaso vindo a essa casa para procurar esse absoluto no horror da velhice?”

Os idosos, frequentadores assíduos da casa, precisam seguir algumas normas restritas -, dentre essas normas está o fato de que é terminantemente proibido praticar relações sexuais com as meninas e, de forma alguma, é permitido despertá-las: “Não procure acordar a pequena. Porque, faça o que fizer para a acordar, ela nunca abrirá os olhos…” Eguchi, embora também seja um cliente da casa, acha que não faz parte do seleto grupo de ‘homens inativos’ -, aqueles que já não são capazes de satisfazer sexualmente a uma mulher, pois acredita que apesar de sua idade ainda não está completamente desprovido de masculinidade. A presença das jovens adormecidas desperta em Eguchi pensamentos eróticos, agressivos e violentos, a tal ponto de fazê-lo desrespeitar as normas estabelecidas pelo bordel.

“Na esperança de, antes de mais, acordar a rapariga, tratou-a brutalmente.”

Para o protagonista, infringir as regras significava vingar os outros velhotes que, segundo ele, passavam pela humilhação de dormir ao lado de meninas drogadas, quase mortas, inanimadas. Além disso, desobedecer poderia ser também uma forma de mostrar que não é ainda um ‘homem inativo’, um ‘não-homem,’ como os outros frequentadores da casa e, assim, comprovar a si mesmo que ainda é capaz de cometer atos viris. Ao decidir manter relação sexual com uma das meninas apercebe-se de que ela ainda é virgem, então chega à conclusão de que a virgindade da menina apenas confirma a incapacidade dos clientes; a virgindade dela corrobora não que os clientes respeitam a ferro e fogo as regras impostas pelo bordel, mas a impossibilidade que eles têm de consumar o ato sexual, por essa razão são chamados pela dona da casa de ‘clientes confiáveis’, ou seja, eram confiáveis pelo simples fato de serem desprovidos de virilidade.
Dormir ao lado de meninas tão jovens leva Eguchi ao caminho da autorreflexão. Ele passa durante as cinco visitas que faz à casa das belas adormecidas a analisar sua própria existência… A presença das jovens, a nudez delas, mas, sobretudo, a juventude delas, faz com que a personagem relembre fatos importantes e marcantes pelos quais passou no decorrer da vida.


Capa da edição portuguesa:

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imagem da capa: Close-up of a woman sleeping on the bed, por Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892)

A casa das belas adormecidas é, ao meu ver, um livro triste, incômodo, um livro que causa perturbação e confusão. A presença da morte dá uma aura de tristeza ainda maior à história, além disso, aborreceu-me um bocado ler sobre um homem/idoso que se relaciona com mulheres jovens, nuas, narcotizadas, adormecidas e completamente vulneráveis, desprovidas de todas as suas defesas… meninas à mercê de atos libidinosos.

“Está profundamente adormecida e não dá conta de nada. Porque a rapariga dorme de um sono só e do princípio ao fim ignora tudo. Mesmo com quem passou a noite…”

Senti, mais uma vez, que a objetificação do corpo feminino é, infelizmente, um tema recorrente. Mais uma vez a mulher é colocada como a responsável pelos atos nefastos cometidos por homens, mais uma vez a mulher é responsabilizada pelos desejos incontidos de homens.

“esta era uma jovem que tanto dormida como acordada incitava o homem com tal força que se agora Eguchi violava as regras da casa só ela teria a culpa do delito.”

Incomodou-me muito o narrador atribuir às meninas o sentido de algo inanimado, a natureza de um objeto, tratando-as como um brinquedo. Não me causou boa impressão, deveras!

“mas tinham feito dela um brinquedo vivo a fim de evitar qualquer sentimento de vergonha a velhotes que já nada tinham de homens. Ou, quem sabe, mais do que um brinquedo, para os velhotes desse tipo ela era a própria vida.  Uma vida que, assim, podia ser tocada com toda a segurança.”

Eu já conhecia a literatura de Kawabata por País da neve Beleza e tristeza, livros muito bons e que me agradaram bastante. No entanto, A casa das belas adormecidas deixou-me com um gostinho amargo na boca. Criei uma antipatia quase repulsiva pela personagem principal, provavelmente por conta da carga psicológica que a acompanha. Entretanto, o mérito de Kawabata está mesmo na beleza de sua escrita; entre os recursos empregados pelo autor, posso dizer que a descrição cuidadosa que ele utiliza ajuda a dar um toque poético à história… Por exemplo, quando ele fala sobre o vermelho das cortinas refletido nas tezes adormecidas das garotas, a posição em que elas dormem, onde colocam suas mãos, como é o formato de seus seios, a cor de seus cabelos… Sua bela descrição não limita-se apenas ao aspecto físico das meninas, mas também ao aroma delas. Ele fala sobre o cheiro do leite que sente em uma das jovens e que remete às lembranças do passado… Descreve de uma forma muito bonita as cores, a camélia desfolhada, o espaço físico onde se encontra a casa, o barulho do mar quando bate nas falésias… tudo isso acaba por dar uma atmosfera quase lírica ao texto.
Os incidentes registrados pelo autor convergem todos para uma estrutura narrativa cujo ponto de sustentação principal é a solidão, decorrente da senilidade. Essa solidão constitui um estado real e concreto de carência, algo que o protagonista no auge de seu contentamento por usufruir da companhia das jovens, não se dará conta. No entanto
, esse contentamento é efêmero, pois no decorrer da história ele perceberá sua decrepitude e tentará resgatar por meio da juventude das meninas sua própria juventude perdida.
A melancolia permeia todo o texto de Kawabata e, ao mesmo tempo que o autor mostra de uma forma bonita os momentos de reflexão da personagem, mostra também um estado de carência afetiva contra a qual o protagonista – apesar de suas limitações – tenta lutar. Contudo, essa luta é inútil, pois para o velho ficará claro 
o contraste existente entre a juventude das meninas e o horror de sua própria velhice. Ele comparará sua idade à das meninas, e a mocidade delas, ao invés de fortalecê-lo, o fará ter mais certeza de sua debilidade e da efemeridade da vida. Eguchi terá a noção exata de sua própria existência e entenderá, finalmente, que a juventude das moças não poderá retardar a passagem do tempo, apenas comprovará que a morte, nessa altura da vida, é inexorável.
“(…) as próprias belas adormecidas são fragmentos de seres humanos avivando o desejo na sua maior intensidade…” (Yukio Mishima)

Outras capas de edições em português:

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