quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Os livros que li...

Faltam ainda dez dias para terminar 2017, mas eu já sei que não lerei mais nada até o último dia do ano. Assim sendo, posso dizer que infelizmente não consegui concluir a meta que estabeleci pra mim lá no comecinho de janeiro: ler pelo menos doze livros no decorrer do ano. 
2017 foi muito conturbado pra mim, cheio de responsabilidades, grandes decisões e problemas maiores ainda. Por conta disso, faltou cabeça para a leitura; eu só consegui - aos trancos e barrancos - finalizar onze livros, mesmo assim posso dizer que gostei de tudo que li.


Quatro desses onze livros foram releituras:
Meu pé de laranja lima: um queridinho capaz de me fazer rir e chorar todas as vezes que entro no universo do menino Zezé;
El cruzado: um livro maravilhoso que já me fez viajar várias vezes de Provença a Jerusalém, naquela que teria sido a Primeira Cruzada;
Cem anos de solidão: porque a triste história dos Buendía e de Macondo mora no meu coração;
A história de uma serva de Margaret Atwood: um livro excelente, mas que serviu também para me fazer perceber que uma série de televisão inspirada em um livro pode ser às vezes até melhor que o próprio livro. Leiam o livro, mas quando puderem assistam também à série, é mesmo ótima!


Sobre as leituras novas:
Iracema de José de Alencar: porque fiquei tocada com o samba-enredo que a Beija-Flor de Nilópolis levou para a avenida no carnaval passado. Decidi encarar a leitura e terminei encantada com a história da virgem dos lábios de mel.
Passaporte para a China: porque é de Lygia fagundes Telles e pra mim tudo que ela escreve vale a pena ser lido.
Diário de um louco de Lu Xun: porque foi-me indicado pelo meu filho... e eu não podia ignorar uma indicação literária de meu filho, né?! No final, gostei imenso desse escritor chinês.
A filha perdida de Helena Ferrante: um livro que incomoda... por causa dessa leitura tive vontade de ler a Série Napolitana, que todo mundo por aí já leu,
menos eu.
Um gato de rua chamado Bob: foi a primeira leitura do ano, se puder escolher uma palavra para defini-lo é: fofo.
As miniaturas de Andreia del Fuego: posso dizer que essa mulher escreve bem pra caramba, mas eu não consegui perceber muito bem o que ela quis dizer. Esse livro é um bocado perturbador e pede uma segunda leitura, em um momento de mais tranquilidade.

Por último, À sombra da figueira de Vaddey Ratner: essa leitura foi de grande ajuda para a viagem que fiz para o Camboja no mês passado. Pude entender muita coisa a respeito do povo cambojano que, apesar de sua triste história, não se deixa abater tão facilmente. 


Espero que 2018 seja um ano muito melhor, com mais leituras e menos perrengues.










segunda-feira, 26 de junho de 2017

O holocausto tão pouco conhecido...

“Primeiro levaram os negros, mas eu não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso. Eu não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso. Porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, mas como eu tenho meu emprego. Também não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.” (Bertolt Brecht)
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Quem aí aprendeu na escola (ou em qualquer outro lugar) algo relacionado ao Massacre de Nanquim? Eu, pelo menos até vir morar na China, não tinha escutado nada sobre isso. Adquiri conhecimento sobre essa parte horripilante da História por meio de livros de alguns escritores chineses que li.
Sempre tive interesse em ler livros que me levassem a aprender algo mais sobre o mundo. Confesso, no entanto, que saindo da ficção e passando para algo mais verídico alguns fatos me causam muita impressão.
Já tinha tido uma experiência bastante perturbadora anos atrás quando visitei um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial: Buchenwald, na Alemanha. Lembro-me bem que quando saí de lá jurei para mim mesma que nunca mais voltaria a colocar os pés em um lugar assim, porque a sensação que tive foi completamente angustiante, triste e, acima de tudo, vergonhosa.
Os anos passaram e eu decidi visitar outra vez um lugar bastante parecido com Buchenwald: o Museu do Massacre de Nanquim. Apesar da atmosfera no Museu do Massacre ser menos lúgubre que no campo de concentração alemão, a sensação não deixou de ser, também, angustiante.
O Massacre de Nanquim foi um episódio negro da História da China e que, infelizmente, até hoje é pouco conhecido. Começou no dia 13 de dezembro de 1937, quando tropas do Império japonês atacaram e dominaram a cidade de Nanquim, naquela época a capital da China. Os japoneses permaneceram na cidade durante seis semanas e, durante todo esse tempo, praticaram as piores atrocidades.
Cometeram assassinatos em massa com requinte de crueldade, estupros coletivos de mulheres jovens, idosas e até crianças, além de saques, roubos e todo tipo de desumanidade. A cidade ficou completamente destruída, as ruas cheias de corpos, um inferno! Foram mortas milhares de pessoas inocentes, completamente desarmadas, rendidas, sem a menor chance de defesa. Ou seja, os japoneses pintaram e bordaram em Nanquim durante essas seis semanas.
O número de mortos não se pode afirmar com precisão, mas o Museu do Massacre nos informa que o Massacre de Nanquim teve aproximadamente 300000 vítimas.
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Eu já planejava uma visita a esse museu há bastante tempo. Queria ver as fotografias e os vídeos disponíveis (sim, há vídeos, mas pesar disso alguns japoneses ainda insistem em dizer que o massacre não ocorreu de fato), assim como os relatos de sobreviventes chineses e estrangeiros que viveram em Nanquim durante a guerra.
Claro que isso tudo pode ser feito por meio do computador, a internet está cheia de fotos e documentários que mostram bem como foi o massacre. Mas eu queria ir lá, sentir pelo menos um pouquinho o desconforto que coisas desse tipo podem causar, porque acredito que esse desconforto é necessário; é preciso de vez em quando um choque de realidade para aprendermos a valorizar o sofrimento alheio.

Dentro daquele lugar me senti desassossegada; senti uma melancolia quase inexplicável. Dentro daquele lugar me senti pequenina e completamente inútil.
Espero, sinceramente, que os erros do passado não sejam esquecidos, que fiquem na nossa memória para sempre. Que olhando para esses erros tenhamos ainda mais certeza dos atos que nao devem ser repetidos jamais. Que essa brutalidade do passado nos ensine a respeitar a dor alheia e, sobretudo, nos ensine a construir um futuro melhor, livre de qualquer tipo de sofrimento e desumanidade. 😥
Quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre o Massacre de Nanquim, indico dois filmes:
Flores do Oriente
City of Life and Death
Além desses dois filmes a internet oferece ainda vários documentários sobre Nanquim, inclusive sobre uma personagem muito importante, John Rabe, um empresário alemão que morou na cidade à época do holocausto e que muito fez pelo povo chinês. Interessante a história dele, vale a pena conhecer.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Do fundo do baú: Colonia del Sacramento!

Remexendo e organizando minhas fotos antigas, encontrei algumas que foram feitas em Colonia del Sacramento, no Uruguai. Já faz alguns anos que estive por lá, mas parece que foi ontem, porque as lembranças ainda estão fresquinhas na cachola.
Não sei se já comentei aqui no blogue, mas antes de vir morar em Hong Kong eu morei por quatro anos em Buenos Aires, na Argentina.
Apesar de ter mencionado Baires, não é sobre a capital portenha que eu quero falar, mas sobre Colonia del Sacramento, uma cidadezinha extremamente charmosa que fica no Uruguai, às margens do Rio da Prata, a apenas um pulo de Buenos Aires.



O farol

Praia afastada da cidade


Geralmente, as pessoas que moram na capital portenha e decidem visitar Colonia del Sacramento vão de manhã e voltam à noite, devido a proximidade é muito fácil e cômodo fazer a viagem; uma horinha só de balsa e chega-se do lado de lá. Porém, eu decidi ir com calma e ficar  três dias inteirinhos. Teria ficado muito mais se tivesse tido tempo, pois a cidadezinha é realmente uma graça e vale cada hora que se passa passeando e conhecendo.
Mesmo sendo uma cidade pequena não faltam cantinhos históricos e casarões charmosos e bem conservados pra ver. Há várias atividades legais que agradam o turista, desde visitar os museus da cidade, conhecer os restaurantes, observar o pôr do sol, como fazer pequenos passeios a pé; também há a possibilidade de alugar um carrinho de golfe e sair um pouco da cidade para conhecer as áreas mais afastadas (algo que eu fiz, achei divertido e recomendo).



Em uma esquina qualquer...




Calle de los Suspiros e o Rio de la Plata ao fundo

Colonia del Sacramento é a cidade mais antiga do Uruguai, foi fundada em 168o pelo português Manuel Lobo e é a única cidade do Uruguai com características bem lusitanas, bem diferente das outras cidades dessa região. Gostei imensamente da forma como os uruguaios recebem os visitantes, eles são simpáticos e fazem com que o turista se sinta em casa.
Foi justamente em Colonia del Sacramento que comi o doce de leite mais gostoso da vida (
lo siento, hermanos argentinos, pero es verdad!) e vi o pôr do sol mais lindo do mundo (não estou exagerando, gente, é sério!).


Uma janela charmosa

Esperando o pôr do sol...

Por do Sol mas lindo do mundo

Pôr do Sol mais lindo do mundo II


O centro de Colonia del Sacramento é simplesmente encantador, seus cantinhos históricos e seus casarões coloniais tão bem conservados fizeram com que em 1995 fosse declarado Patrimônio Histórico da Humanidade. Apesar de morar tão longe atualmente, ainda penso um dia fazer um passeio por lá outra vez. Colonia é lindinha demais, por isso merece mesmo uma visita demorada. :)



domingo, 23 de fevereiro de 2014

Neve, Orhan Pamuk!

“(…) o mal do mundo – isto é,  a pobreza e a ignorância dos pobres e a esperteza e dissipação dos ricos – e toda a vulgaridade do mundo, toda a violência, toda a brutalidade – isto é, todas as coisas que nos enchem de culpa – decorrem do fato de todo mundo pensar igual.”
neve
Caso eu fosse uma pessoa influenciável teria desistido de ler Neve, não teria nem começado, porque entre as muitas opiniões que andei lendo por aí a grande maioria taxava o livro de lento e enfadonho. Porém, como eu prefiro tirar minhas próprias conclusões a respeito dos livros que me interessam, não dei muita importância e comecei a leitura mesmo assim. E tive uma grande surpresa, pois percebi que Neve não só deixa de ser lento e enfadonho como é um livro informativo, instigante e agradável.Eu gostei muito da história criada por Orhan Pamuk, gostei da temática da obra, da forma como o autor conduz a narrativa e dos muitos dados sobre a Turquia que fornece.
O livro tem quase 500 páginas repletas de informações políticas, geográficas e, principalmente, relacionadas à religião. Além disso, é também bastante poético.
A trama, ambientada na Turquia, conta a história de Ka, um poeta e jornalista que regressa a Kars, seu povoado de origem, após muitos anos de exílio político na Alemanha. No entanto, a cidade que Ka encontra não é mais a mesma de outrora, as pessoas mudaram, agora Kars é um lugar repleto de conflitos. Como se não bastasse, há também uma onda de suicídios de garotas adolescentes, esse é um dos motivos pelos quais Ka decide voltar à cidade, pois precisa escrever um artigo sobre a morte das meninas.
O que mais chama a atenção do protagonista é como essas meninas se matam: “Uma maneira abrupta, sem nenhum aviso prévio, no meio de seus afazeres diários.”
A parte mais interessante da história é quando Pamuk – para explicar as razões que levam as adolescentes a atentar contra a própria vida -, adentra o tema da religião, mostrando os conflitos existentes no país: o dilema da Turquia contemporânea; a rinha entre fanáticos religiosos e ateus; a hostilidade existente entre os seguidores do islã e os defensores do Estado.
“O Estado, que proibiu que mulheres entrassem nas salas de aula com a cabeça coberta, afirma que o manto é um símbolo do islã político, que impede que as mulheres gozem dos mesmos direitos dos homens. O islã, que defende o manto, assegura que seu uso é uma forma de protegê-las e valorizá-las.”
O pano de fundo é justamente essa discussão acalorada acerca da necessidade de usar ou não usar o manto, de cobrir ou não cobrir a cabeça. É um tema bem explorado durante toda a narrativa, um assunto bastante controverso, “pois muitas mulheres são a favor de abandonar o manto, porque o consideram uma forma de repreensão religiosa. Outras, no entanto, o defendem, pois acreditam que seu uso é uma forma de proteção contra assédio, estupro e a degradação da mulher. Inclusive há aquelas que acreditam que o manto traz respeito, dignidade e um lugar mais satisfatório na sociedade.”
Ka, apesar de possuir um certo interesse pela religião, não tem muito claro se é ateu ou se tem fé em algo. Algumas vezes sente-se culpado por ter se recusado durante praticamente toda a vida a acreditar no mesmo Deus daquelas pessoas que ele considera não instruídas. Ele se mostra visivelmente confuso, por isso sua visita a Kars vai servir também como uma forma de aproximação com Deus, um reencontro consigo mesmo, uma nova oportunidade de reavaliar sua fé, de decidir de que lado está realmente.
“Não conseguia ver como poderia conciliar essa minha nova identidade europeia com um Deus que exigia que as mulheres se cobrissem com mantos, então tratei de excluir a religião de minha vida. (…) Eu quero um Deus que não me peça para tirar os sapatos em sua presença e que não me obrigue a me pôr de joelhos para beijar as mãos das pessoas. Eu quero um Deus que entenda a minha necessidade de solidão.”
Mas, e as meninas suicidas, por que elas se matam? O suicídio delas tem algo a ver com a proibição de usar o manto? O que elas pretendem com isso, defender o islã ou apenas protestar contra o Estado?
São muitas as perguntas colocadas por Pamuk e, no meio de todo esse turbilhão de contestações, informações e conflitos, o livro ainda se encarrega de relatar uma história de amor: a história de Ka e Ipek.
Ipek foi uma antiga companheira de escola de Ka, revê-la foi outra das razões que fez ele regressar a Kars. A história do casal é bonita, sensual e cheia de encontros e desencontros.
Quando o narrador fala sobre a neve, sobre a claridade da neve e sobre os poemas que Ka escreve inspirado pela neve é bastante comovente, profundo e poético. A brancura da neve é sugestiva, inspiradora e se encarrega de trazer à tona o lado mais lírico do poeta e protagonista Ka.
Neve é um suspense político bem narrado e com informações muito bem amarradas. Recomendo!
Sobre o autor:
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Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Hoje é o principal romancista turco, traduzido em mais de 40 idiomas. Em 2006, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Pintor de Cracóvia

“Não sou responsável do aqui exposto. O copiei diretamente da vida.”

cracovia
Ultimamente tenho tido a sorte de fazer boas leituras. Coincidência ou não, têm caído em minhas mãos livros perturbadores e tocantes. Um desses livros é o Pintor de Cracóvia, que conta a história real de Joseph Bau, um sobrevivente do Holocausto. Durante a leitura o leitor se depara com uma história de guerra, de desumanidade, de injustiça e de miséria, mas também com uma história de força, de luta, de esperança e, sobretudo, com uma história de superação.
Além de contar detalhes de sua vida nas ruas de Cracóvia e os horrores da guerra do princípio ao fim, Bau conta-nos também sua linda história de amor: um amor sem limites, um amor incondicional.
Ele fala carinhosamente sobre Rebecca, uma moça que conheceu no Campo de Concentração de Plaszow, na Polônia. Conta o que sentiu quando a viu por primeira vez, de como se apaixonou por ela e de seu casamento clandestino dentro do próprio campo de concentração. Explica-nos como burlou a segurança para consumar o matrimônio no barracão das mulheres. Fala do medo que sentiu ao ser surpreendido por policiais alemães que puniam com violência qualquer tipo de contato sentimental entre um homem e uma mulher. Narra de forma sensível suas dores, seus amores e desamores.
O que mais me tocou na história de Joseph e Rebecca foi perceber que apesar da opressão e do pavor eles não sufocaram o amor que sentiam. Seus corações estavam vivos e apaixonados, o amor que eles viveram foi muito grande, muito maior que a crueldade do nazismo, muito mais forte que  o medo… E isso foi lindo.
"Nos casamos às escondidas no Campo de Concentração de Plaszow. Celebramos nossa boda no dia de São Valentino por casualidade, porque no campo não éramos conscientes de que era o dia internacional do amor."
Bau sobreviveu ao Holocausto porque foi trabalhar para Oskar Schindler. Rebecca, que havia sido selecionada para trabalhar na empresa de Oskar, por amor ao marido pediu que seu nome fosse substituído pelo dele. Depois que Joseph partiu, Rebecca Bau foi enviada para Auschwitz, um dos campos de concentração mais temidos. Em Auschwitz a escolheram três vezes para ingressar na câmara de gás, durante as três vezes ela conseguiu uma forma de se salvar.




silencio
O mundo se calou!
Joseph Bau escreveu este poema para Rebecca pouco antes da separação:

La despedida
Aunque nuestra vida juntos fuera muy corta
Ahora debo partir
Me voy triste y desolado
hacia un destino dispuesto
por estos tiempos desesperados
por un camino sin señalizar
Hacia un destino burlón.
todo está preparado para darme la bienvenida.
Me voy, pero cuando las puertas se cierren tras mí
y reine un silencio momentáneo,
cuando el tiempo erosione mis huellas,
no pienses en mi con pesar,
porque atrás dejo muy poco:
el corazón de un poeta chiflado,
unas cuantas cartas, algunas odas dedicadas a ti,
una flor marchita y los sueños que soñamos
sobre los días que pasaríamos juntos,
y planes que, ai de mi, no se hicieron realidad.
Recuerda nuestra casa soñada,
la que nunca fue,
tu despacho y el mio?
Querido Dios, por que no puedes ser amable?
Pero si, como predije, las cosas cambian,
y si los recuerdos perviven en tu mente,
piensa en mí a menudo,
sin la pena que ahora nos abate
Nuestros caminos volverán a cruzarse.
Entonces... por qué lloras?
No llores más, no estés triste...
Porque, mira, yo también resisto...
Bueno, adiós, hasta la vista!
Dame otro beso y otro abrazo
y cuidate,
mi amor querido y sagrado.
A narrativa de Joseph tinha tudo para ser apenas mais um relato triste, como muitos já conhecidos, mas não é. Sua história de vida durante esse período negro da História tocou-me profundamente n’alma.

Sobre o autor:
bau
Joseph Bau nasceu em Cracóvia em 1920. Em 1950 emigrou para Israel, onde abriu seu próprio estúdio. Trabalhou em muitos filmes de animação chegando a ser conhecido como o Walt Disney israelita. Morreu em 2002.
** Não sei se o livro foi publicado no Brasil. O título original é Dear Got, Did You Ever Gone Hungry?
A poesia transcrita acima está tal qual encontrei no livro, infelizmente não tenho capacidade para traduzi-la, até porque acho que um poema quando traduzido perde muito de sua beleza e lirismo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida...

“Toda mulher que já teve um bebê sentiu dor, e as mães de menininhas têm o coração cheio de tristeza.”
mensagem de uma mae
Logo que terminei a leitura de Xu Xiaobin, A Serpente Emplumada, quis dar continuidade a minha empreitada de conhecer mais a fundo a literatura chinesa. Pesquisei sobre vários livros e decidi ler Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, de Xinran.
A história me tocou bastante, provavelmente por trazer relatos reais acerca de mulheres chinesas que devido aos percalços da vida precisaram abandonar suas filhas à própria sorte. Os depoimentos são tão reveladores que não tem como lê-los sem sentir um nó na garganta, sem imaginar como reagiríamos caso fosse conosco. Não tem como não nos colocarmos no lugar dessas mães e sofrermos com elas. Confesso que por vezes chorei… É triste, muito triste!
Xinran começa nos explicando o porquê de haver na China tantas meninas orfãs. Ela diz que isso acontece, em primeiro lugar, porque é um costume arraigado na cultura do povo, pois desde os tempos antigos bebês do sexo feminino são considerados inferiores e abandonados em comunidades rurais do oriente; em segundo lugar, porque há uma combinação de ignorância e liberdade sexual; e por último, por causa da existência da política do filho único.”
Nas zonas rurais, onde os habitantes tiravam o sustento de métodos mais primitivos como a agricultura e a pesca, a preferência por crianças do sexo masculino era mais comum; por causa de sua força física e capacidade para trabalhos pesados elas eram mais desejadas. Além disso, a tradição que diz que apenas o filho homem tem o direito de herdar o nome do clã, que apenas ele pode dar continuidade a linhagem familiar e acender o incenso no altar dos ancestrais, fez com que algumas pessoas, sobretudo aquelas com pouca ou nenhuma instrução, começassem a abandonar ou asfixiar a criança logo após o nascimento, caso fosse menina.
Eu já tinha escutado falar sobre a desvalorização da criança do sexo feminino na China, mas a verdade é que nunca havia entrado em contato com histórias que me revelassem de fato como tudo acontece. Todas as vezes que tomei conhecimento de algum caso de abandono de menininhas, achava que os pais faziam isso por falta de compaixão, por falta de amor, propriamente dito.
Hoje, após ler o livro de Xinran e conhecer as circunstâncias que levaram muitas mães ao ato de abandonar suas meninas, compreendi que elas agiram assim mais por falta de opção que por falta de amor.
Muitas mães, por conta do abandono de suas filhas, acabaram tristes, deprimidas, algumas enlouqueceram, outras se suicidaram. Após ler esses relatos, o sentimento que restou é o de completa tristeza.
A autora de Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida recebeu inúmeras cartas de meninas que foram adotadas por famílias estrangeiras. Essas meninas têm suas vidas repletas de dúvidas, por isso muitas mães adotivas aproximaram-se da literatura de Xinran em busca de respostas para os questionamentos das filhas. Entre todas as perguntas que foram feitas, a mais recorrente foi: Por que minha mamãe chinesa não me quis? No livro, Xinran tenta responder a essa pergunta e mostrar a essas meninas chinesas, que perderam as mães biológicas, o quanto suas mães sofreram e o quanto elas as amavam.
No final, a autora ainda pergunta: com todas as dramáticas mudanças pelas quais a China passou, será que as mulheres que pela tradição foram forçadas a abandonar suas menininhas terão algum dia a chance de abraçá-las novamente?
Adoraria acreditar que sim.
“Uma mulher era como um seixo desgastado e arredondado pela água e pelo tempo. Nossa aparência externa é alterada pelo destino que nos cabe na vida, mas água alguma poderia alterar o coração da mulher chinesa e seus instintos maternos.”
Sobre a autora:

xinran
Xinran é uma jornalista e escritora chinesa. Nasceu em Beijing em 1958. Em 2004 fundou uma ONG, The Mother’s Bridge of Love, que busca auxiliar orfãos chineses e estreitar a compreensão entre Ocidente e China.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Conhecendo um pouquinho da arte russa...

Acho que já comentei em outro post que adoro Hong Kong pela variedade de programas culturais que oferece aos moradores e visitantes, né? Aqui, quem quer vai encontrar coisas novas e interessantes para fazer todo dia, porque atividades culturais não faltam. Até quem não quer gastar muito pode se dar ao luxo de fazer esse tipo de programa, já que alguns museus em Hong Kong reservam um dia da semana pra receber visitantes de forma gratuita.

Falando em atividades culturais, há alguns meses chegou em Hong Kong a exposição Fabergé, Legado da Rússia Imperial e eu, curiosa que sou, fui lá dá uma olhadinha.

Os ovos de Páscoa de Fabergé foram sem dúvida o destaque da exibição, mas além deles foram trazidas também muitas outras obras de arte e peças raras, como jóias, metais preciosos, pedras e peças sacras. A exposição foi linda, totalizou mais de 270 itens que foram emprestados da coleção dos Museus do Kremlin de Moscou.
Eu já conhecia de perto alguns desses ovos, pois já os tinha visto em outra exposição em São Paulo e, apesar de ter achado a exposição daqui inferior à de Sampa, ainda assim achei que valeu a visita, pois os objetos exibidos são lindos e valem todo o tempo que se gasta para admirar cada um deles. 


Ovo de Páscoa de Fabergé


O Kremlin de Moscou/Ovo de Páscoa


Peter Carl Fabergé

Sobre o autor das peças eu pouco sabia a respeito, já havia pesquisado um pouquinho sobre ele anos atrás quando fui à exposição em São Paulo, por isso acho que a exposição aqui em HK foi uma oportunidade pra conhecer mais sobre esse artista. Peter Carl Fabergé foi um mestre joalheiro e ourives, uma figura muito importante na ascensão do artesanato de jóias no final do século 19. Embora a fama da Casa de Fabergé tenha desaparecido por um tempo após a eclosão da Revolução Russa, o seu renome mundial persistiu graças às obras fabulosas que produziu.
Dos inúmeros itens que Farbegé criou para a corte russa, os ovos imperiais de Páscoa são, sem dúvida, o que chama mais a atenção.



Casket Box



Transiberiano/Ovo de Páscoa


O nome Fabergé é geralmente associado aos ovos imperiais de Páscoa criados para a família real russa. E
apesar de serem obras-primas da arte do joalheiro, esses ovos representaram apenas uma pequena parte da coleção do artista. O sucesso de Fabergé veio de sua dedicação ao inovar e abrir a mente para combinar e abraçar o artesanato e as técnicas de diferentes formas e estilos artísticos. Além disso, ele estabeleceu uma base sólida para a indústria joalheira da Rússia no final do século 19 ao início do século 20, dando origem a um grande número de renomados artesãos e mestres de jóias.
Como a Páscoa é o feriado mais importante do calendário ortodoxo russo, a Casa de Fabergé começou a fazer ovos como presente para os nobres. Estima-se que entre 1885 e 1917 mais de cinquenta ovos de Páscoa foram criados para a família real. 
Alguns desses ovos desapareceram após a Revolução de 1917, e entre os quarenta e dois que permaneceram, dez deles são armazenados na câmara do arsenal do Kremlin de Moscou.
Na exibição em Hong Kong foram trazidos apenas quatro - poucos é bem verdade - mas de uma beleza sem igual.