sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Grande Sertão: Veredas - Para ler uma e outra vez!!

"O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão."
Eu sempre tive uma vontade muito grande de ler Grande Sertão: Veredas. Tantas vezes escutei que era uma obra sem igual, que valia muito a pena; ouvi tantos elogios que em duas ocasiões comecei a lê-lo, mas lamentavelmente foram tentativas fracassadas, pois sempre parava no meio do caminho ou, para ser mais sincera, muito antes do meio do caminho. A leitura não fluía como eu esperava, eu perdia a motivação e, quando percebia, já tinha deixado de lado e estava lendo outros livros.
Finalmente, em agosto de 2011, decidi insistir na leitura e fiz disso uma meta, só que dessa vez fui muito além das primeiras páginas, fui conquistada pelo encanto da narrativa de Rosa e consegui concluí-la com lágrimas nos olhos.
Acho que colocar aqui que adorei seria muito pouco, porque Grande Sertão é um livro esplêndido e encantador, não digo isto apenas por ser um clássico da literatura brasileira, mas pela emoção que senti durante toda a leitura.
Confesso que no início tive uma certa dificuldade em entender a linguagem tão peculiar de Guimarães; seu texto recheado de neologismos e invencionices tornou a leitura muito lenta, porém essa dificuldade foi desaparecendo no decorrer da narrativa. À medida que fui entrando em contato com as muitas reflexões do protagonista Riobaldo, essa mesma linguagem passou a soar quase familiar. 
As paisagens do sertão sabiamente descritas, o jeito de ser do sertanejo, sua fala arrastada e ao mesmo tempo tão cheia de sabedoria, a forma como o autor aborda dilemas existenciais, tudo isso faz com que nos aprofundemos ainda mais no drama interior da personagem principal.
Riobaldo com suas reflexões, suas dúvidas e medos, seu amor (reprimido) por Diadorim, de alguma forma, enriquece a perspectiva do leitor. Cada causo por ele contado nos intriga e nos leva a refletir também, então, sonhamos com ele, lutamos com ele, amamos com ele. 
Guimarães ainda nos brinda com uma sublime história de amor... triste e impossível, é bem verdade, mas nem por isso menos bela. Quem não seria capaz de ficar tocado em uma passagem como esta?
 "(...) meu amou inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, as muitas demais vezes, sempre."
Eu acreditei e me emocionei com esse amor, embora soubesse de antemão da impossiblidade e do desfecho trágico. Grandes Sertão: Veredas é um poço de sensibilidade e lirismo. Ah, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Zé Bebelo, Hermógenes, Medeiro Vaz... Já estou mesmo a saudadear.


Enquanto lia Grande Sertão não cansava de pensar a respeito daqueles leitores que não conseguem ler o livro em português. Sempre tive muita curiosidade em saber mais sobre as traduções dessa obra para outras línguas. Como será que traduziram os neologismos, a fala do sertanejo, as invencionices de Rosa? Será que foi possível captar a essência das personagens? Será que a linguagem criada por Rosa não perdeu seu encanto quando transportada para outro idioma? Será que o leitor consegue se sentir cativado da mesma forma que nós, falantes da língua portuguesa, nos sentimos?
Depois de todos esses questionamentos, cheguei à conclusão de que sou mesmo uma grande privilegiada, porque posso ler Grande Sertão no original. 
Obrigada, Guimarães, por seu legado!
Sobre o autor:
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João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, a 27 de junho de 1908. Formou-se em Medicina em 1930. Clinicou em Itaguara e mais tarde serviu como médico voluntário durante a Revolução de 32. Era Poliglota. Seguiu a carreira diplomática e foi nomeado cônsul em Hamburgo, na Alemanha. Exerceu outras atividades diplomáticas na Colômbia e também na França. É autor de vários livros, entre eles, Sagarana, Corpo de Baile, Primeiras Estórias e Tutaméia - Terceiras Estórias.

4 comentários:

  1. Pelo que tu falou, a história parece bem linda mesmo... Não lembro se já tentei ler esse livro em algum momento... Por acaso tem uma cachorra chamada Baleia??? hehe...
    Tu mora na Ásia??? Que legal!!!

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  2. Oi,
    A história é mesmo encantadora. Vc deve lembrar de Riobaldo e Diadorim, as personagens principais; acho que até foi adaptado pra Tv tempos atrás. O da cachorra Baleia é o Vidas Secas de Graciliano Ramos.

    Eu moro na China, em Hong Kong.
    ;)

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  3. Oi, Day!

    Esse livro é um dos melhores do mundo! E o início da leitura é complicado mesmo, demora um pouco pra gente se sentir próxima à vida de Riobaldo, mas quando a "mágica" acontece... Meu Deus do Céu! Eu sou uma pessoa mais feliz por já ter lido esse livro. Fico emocionada toda vez que lembro das pequenas passagens, os sentimentos, os medos e, principalmente, a coragem de todos os personagens.

    Um beijão

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  4. Francine, eu também sempre digo a mesma coisa: sou uma pessoa muito mais feliz por já ter lido Grande Sertão! Parece até meio exagerada essa afirmação, né? Mas não é!
    O engraçado é que depois que a gente passa a dificuldade do início e consegue concluir a leitura, a gente pensa: Caramba, pq demorei tanto tempo pra começar.
    Eu ainda não reli o meu na íntegra, mas sempre estou relendo as passagens sublinhadas... São tantas emoções.

    Beijo

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